Da dor nasce a reflexão

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sunset Ibaraki Beach Ocean
sunset Ibaraki Beach Ocean

Um pequeno relato de um brasileiro que trabalhava no Japão. 


Dia 11 de Março de 2011. Um dia trágico para o Japão, as províncias de Fukushima, Miyagi entre outras foram atingidas seriamente por um tsunami, ondas gigantes que destruíram cidades inteiras e ainda afetaram os reatores nucleares da usina da Tepco em Fukushima. 


Trabalhava em uma fábrica na província de Tochigi, apenas 300km de Fukushima. Nessa região confesso que não sabia da gravidade da situação pois terremotos são comuns em todo território japonês. Esse dia estava em casa com minha esposa peruana e sua mãe. Algo parecia errado, o tremor estava longo durou quase quatro minutos, muito mais demorado que o normal e começava a ficar cada vez mais forte. Percebendo que algo estava fora do comum, nós corremos pra fora de casa com medo dela desabar. 


Nas ruas, como era de tarde, todos sem entender o que havia acontecido. Crianças chorando, todos ligando para os familiares. A energia elétrica havia sido cortada. Meu celular na época era o único com bateria e um pouco de sinal 3g. Através dele vi pelos portais de notícias a gravidade da situação em que o país se encontrava. Tsunami, terremoto com epicentro no mar, as autoridades pedindo para se protegerem e sair das costas litoraneas. Nós vivíamos distantes do mar, não sabíamos o que estava acontecendo direito, foi através do Twitter que conseguia me inteirar mais rapidamente das notícias e logo já avisar aos nossos familiares que estávamos bem. 


Fazia frio, o aquecimento das casas dependiam da energia elétrica, a qual era gerada através de usinas nucleares. Lembro que fomos dormir assustados, ainda acompanhando as notícias. Dia seguinte, filas nos supermercados e lojas de conveniência, muitos organizando o quanto cada um poderia comprar, comida e mantimentos racionados e organizados em filas. Não havia quebradeira, tudo pacífico, mas o ar era de tensão. 24 horas depois do susto a energia havia voltado. 


Dois dias após o terremoto, mais fortes tremores foram sendo registrados e as notícias que víamos  era de que não tomassemos água da torneira que poderia estar contaminada pela radiação. A preocupação era até mesmo com a chuva que poderia espalhar pela água a radiação para outras províncias. Foram dias de incerteza, o mal agora era a crise nuclear. O medo fez muita gente ir embora do Japão. A embaixada da França pediu que todos os cidadãos franceses deixassem o o país.   


Para liberar um pouco do stress causado saímos caminhando à pé, até a estação principal da cidade onde vivíamos, Utsunomiya. Muitos ônibus estavam parados, mas parcialmente os trens ainda funcionavam. De curiosidade entramos no complexo da estação e víamos muitos repórteres, pessoas querendo ir às áreas afetadas, mas o caminho agora era somente por Estradas. Os trens só iam em direção sul, sentido Tokyo. Todas as vias para Tohoku paravam aí em Utsunomiya. 


Paramos em um lugar para tomar um café. Encontramos um homem com semblante de preocupação, Rafael era seu nome, boliviano engenheiro de petrolífera desesperado por notícias de sua esposa japonesa que morava em Fukushima. Por sermos estrangeiros ele se aproximou e conversamos, tomamos um café juntos e escutamos a sua dor. Ele não sabia o que fazer. Por já estarmos lá e por saber falar japonês e se inteirado da situação do transporte, nós o direcionamos para que ele conseguisse um coche, um carro para ir até a zona afetada atrás de sua família. Rafael saiu correndo, nos agradeceu e foi embora. Voltamos à pé pra casa e nunca mais tivemos noticias desse homem, Rafael, espero que tenha encontrado sua família à salvo. Acho que nesse dia surgimos no caminho desse cara por um propósito, uma ajuda. 


Voltando à rotina, a fábrica onde trabalhávamos eu, minha esposa e minha sogra havia declarado que não havia condições de serviço em razão do terremoto. Depois de tantas notícias ruins mais essa. Teríamos que esperar três meses para poder voltar ao mesmo trabalho ou definitivamente buscar outro emprego. E lá fomos nós sofrer na fila do desemprego, trabalhando de canto em canto para manter um salário mínimo de sobrevivência, o custo de vida é muito caro no Japão e todos nós tínhamos que economizar ao máximo para ainda enviar dinheiro para nossos familiares no Brasil e Perú. 


Enfim como tudo na vida é aprendizado, o tempo que agora nos sobrava, pensava em soluções, resolvi me dispor a trabalhar o que fazia quando estava no Brasil. Sempre trabalhei no Brasil como designer gráfico e criação em publicidade, porque não aplicar os conhecimentos no Japão? Pois bem assim nasceu a ideia do site Creative Bros Design, antes por fazer largas horas extras não tinha tempo para pensar em se reinventar. Começamos com um site importando cosméticos pela Internet dos Estados Unidos e vendendo para o pessoal que conhecíamos, mas ainda era difícil fazer negócio com os japoneses, a clientela era mais gente como nós, brasileiros, peruanos, filipinos, professores de inglês franceses, britânicos, todos gaijin ou gaikokujin que é mais bonito. Estrangeiros eram o foco. Assim por que não oferecer design gráfico, Papelaria, logo e sites pra essa turma! Esse foi o verdadeiro início desse site. Claro que não atuei sozinho, pedi ajuda a amigos no Brasil para dar suporte em determinados focos como redação, tradução porque eu não sou 100% fluente em japonês, a escrita também me deixou pra trás. Espalhei cartazes oferecendo meus trabalhos nos pontos de estrangeiros, restaurantes, pizzaria, etc. 

Foi através dos cartazes que consegui os primeiros clientes e até colaboradores, pessoas formadas em publicidade, fotógrafos, porque não se unir, vamos montar uma agência no Japão eu pensava. 


Com certeza nessas dores que surgiu a esperança de dias melhores, tudo isso aconteceu logo depois de me casar, meu falecido pai que foi o verdadeiro motivo de ter vindo ao Japão, nunca pediu que eu seguisse tal caminho, sempre me deu liberdade de escolha para uma profissão. 

Já tinha ido ao Japão porque ele estava doente e nós no Brasil já tínhamos quebrado um negócio, não deu certo. 

Precisava de ajuda pra crescer e hoje temos colaboradores espalhados pelo Japão, no Brasil e outros lugares. Trabalho novamente agora só com Design e Marketing no Brasil, mas mantendo os clientes em todos os lugares. Compartilho essa trajetória de fracassos e sucessos e ainda penso em se reinventar. Vamos manter essa forma de pensar? 


Mario Hideki, Creative Bros Design. 


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